quinta-feira, junho 22, 2006

Resposta ao Post da Lobka - Direito à Indignação

Compreendo o que queres dizer, mas eu como pessoa nascida e criada no interior não posso concordar contigo.
É verdade que a natalidade no interior do país está a diminuir mas também o está em todo o resto do país e a culpa não é do fecho das escolas ou das salas de parto.
Na minha opinião esse decréscimo deve-se à falta de uma política séria de incentivo e apoio à natalidade, que devia ser feita e votada pelas mulheres e não pelos homens, que pouco ou nada entendem do que é ser mãe. Alguém tem de explicar a esses senhores (políticos) que ser mãe não é só parir (coisa que pode demorar 12 horas), dar de mamar (no máximo 4 meses porque depois há que ir trabalhar – e até porque na perspectiva desses senhores há sempre o biberão que não exige a presença da mãe) e mudar as fraldas (coisas que alguns deles fazem de quando em vez, de preferência após os 2 meses porque até aí cheira muito mal e há quem faça por eles), SER MÃE é um compromisso para o resto das nossas vidas, é ter um ser que passa a depender inteiramente de nós 24h por dia durante bastantes anos, não é uma coisa que sai e depois logo se vê.
Não é com 50 euros de apoio por mês, durante o primeiro ano, que uma mãe vai conseguir “sustentar” o seu filho quando ao fim de 4 meses o tem de por num infantário público, que mesmo no interior custa 150 euros/mês, em que um pacote de fraldas custa 20 euros e dá para 5 dias dependendo da sorte, que o suplemento de leite custa 18 euros a lata. Ao fim dum ano a coisa piora porque esse apoio passa para 25 euros/mês, não é dia. Ora num país em que um preso custa por dia 55 euros ao estado com direito a alojamento, pensão completa e ainda roupa lavada, apetece perguntar se dá para ir passar uns 3 aninhos por lá e depois voltar, é que com 55 euros paga-se por uma noite num hotel de 3* com direito a pequeno-almoço em qualquer parte do país.
Quanto às escolas: Quando entrei para a primária andei numa escola que tinha apenas uma sala de aula, onde as 4 classes funcionavam ao mesmo tempo, onde éramos no máximo 25 alunos no total. Só quando passei para a 3ª classe é que tivemos direito a um professora nova que ficou com a 3ª e 4ª classe, ainda assim juntas na mesma sala. Estão a imaginar a concentração duma criança de 8 anos a fazer um qualquer exercício quando ao mesmo estamos a ouvir os alunos da 4ª classe a fazer uma coisa completamente diferente. Hoje em dia essa escola tem 6 alunos, de classes diferentes, e posso dizer que a motivação que têm para ir para a escola não é nenhuma, assim como os próprios professores não podem ter nenhuma motivação porque mesmo querendo fazer exercícios de grupo, trabalhos de grupo ou actividades de grupo que desenvolvam as capacidades das crianças não podem porque não existem crianças suficientes para fazer esse grupo. E acreditem que perde-se mais com isso do que com o facto duma criança ter de fazer 40 km (normalmente 30 min de carro) por dia, para ir para uma escola onde pode ter actividades que o ajudam a desenvolver as suas capacidades intelectuais e como individuo e onde podem conviver com muitas crianças da sua idade. Quem me dera que comigo tivesse sido assim, e na época eramos 25.

Quanto às maternidades: Devia era haver inspecções rigorosas a muitas mais e verificarem o que se passa na realidade em cada uma delas e a forma “desumana” como as parturientes são tratadas e aposto que muitos processos seriam levantados e muitas mais fechavam as portas para bem das futuras mães e crianças. Ora vamos a factos: O hospital de Abrantes tem neste momento a seu cargo o serviço de obstetrícia do médio tejo, que quem conhece engloba os concelhos de Mação, Vila de Rei, Sardoal, Ponte de Sôr, Tomar, Torres Novas, Entroncamento e Abrantes, é uma “maternidade” em que as grávidas de parto normal não têm direito a epidural porque não há anestesistas e porque é caro, ainda que as mães possam optar por pagar a dita, agora expliquem-me se não há anestesista para a epidural o que será duma grávida que tenha de fazer uma cesariana em consequência do parto, faz sem anestesia ou será que aí a anestesista já aparece, isto não é filha de putice, é não é, há que deixar sofrer as mulheres que isso logo passa. E mais, em caso de complicação no parto e se houver risco de morte há que chamar o helicóptero porque aqui não há meios humanos e técnicos suficientes para o socorro. Perguntam-me: Um dia vais ter o teu filho em Abrantes? Resposta: Nem morta e nem que tenha de ir em trabalho de parto até Lisboa que é 1.10h de caminho. Atendendo a que um parto pode demorar 12h ou mais acho que dá mais que tempo.
Se vivesse em Elvas, claro que iria ter o meu filho a Badajoz. Os políticos e alguns cidadãos indignados que se deixem de merdas de nacionalismos bacocos porque a verdade é que até agora e de Campo Maior a Elvas só não ia a Badajoz quem não tivesse possibilidades monetárias para o fazer (e parece que é isso que este governo está a possibilitar), incluindo a consultas de obstetrícia, pediatria e até de infertilidade que é outro caso gritante de negligência existente no nosso país. Quando o caso é ir fazer o Aborto do lado de lá já ninguém se indigna, não é? Aí já não há nacionalismos.

Quanto aos hospitais em geral: No interior não estás 10 horas à espera numa sala lotada mas podes estar 3 h ou 4 h e a seguir teres de ir de Ambulância para uma grande cidade onde estás mais essas 10 h à espera de vez.

Sabem o que me apetece dizer a muitos políticos e autarcas indignados que andam por aí : Cresçam e apareçam.

4 comentários:

Lobka disse...

Ao ler o teu comentário/post percebo no quanto és uma mulher de sorte. Podes escolher onde ter o teu filhote, podias ir e voltar de carro prá escola (caso a escola fosse longe de casa), etc! Sabes que muito bem que essa não é a realidade de muita gente.
A questão aqui não são as politicas da Segurança Social ou mesmo de Planeamento Familiar, pq nessas concordo contigo. O problema é que estas pessoas não escolhem ir ter o bebe a Badajoz! E agora o bebe que morreu à nascença não pode ser enterrado em Portugal pq a familia não tem como pagar a transladação do corpo para a cidade deles! Agora o estado provavelmente vai-se chegar à frente e vai pagar! Anda a pôr remendos em buracos que andou a fazer com estas politicas.
Se não se fechasse especialidades dos hospitais locais as pessoas nao tinham que vir para Lisboa de ambulância e esperar horas!

Lobka disse...

Ah outra coisa! Já é mau ouvir homens a descartar-se de decisões sobre os seus filhos, mas ouvir uma mulher dize-lo choca-me ainda mais! Ambos têm as mesmas responsabilidades, direitos e deveres! Já acho que são negados muitos direitos aos homens quanto ao exercício da paternidade. Poque é que a nossa sociedade reconhece mais direitos à mãe do que ao pai??? Não percebo!!!

Anónimo disse...

Olha lá miuda. Isso quer dizer que tu e o teu texugo voador vão-se mudar de vez para o interior?

Não vãoooooooooooo!
Fiquem!

Viva as mulheres e viva as mulheres de barba rija (normalmente mais avistadas no interior)! hehehehe

Sara disse...

Xiça, achas? Claro que não, vamos continuar no mesmo sítio, a não ser que me saia o euromilhões, claro.